O azeite de dendê vai acabar? Entenda a crise de produção neste ano

Publicada em: 04/09/2020 09:19

O azeite de dendê é um óleo muito popular na culinária brasileira, produzido a partir do fruto do dendezeiro, uma palmeira originária do oeste da África. Também conhecido como óleo de palma, o este azeite é usado em diversos pratos de sucesso como o vatapá e o acarajé.

Mas apesar de indispensável na culinária nacional, em especial na cozinha baiana, o dendê está passando por um momento de crise. A baixa na produção deste ano e o aumento do preço por litro estão afetando diretamente esta tradição culinária.

Se você quer ficar por dentro do que é a crise do dendê, o CyberCook te ajuda a entender a importância desse alimento e dessa discussão no dia a dia.

azeite de dendê/cybercook

O dendê é insubstituível

Segundo a ABAM (Associação Nacional das Baianas de Acarajé, Mingau, Beiju e Similares), o custo por litro do azeite de dendê subiu em até 85%: um balde com 16 litros passou de $65 reais para $120. O motivo é a queda na produção regional de dendê, na Bahia, onde o dendê costuma ser ingrediente indispensável - e insubstituível.

A importância do dendê como ingrediente não está apenas no sabor e no aroma, que já são marcantes o suficiente para entender o por que os baianos não abrem mão. O azeite é também importante componente cultural da Bahia, como atração de pratos típicos e também por fazer parte dos costumes das religiões de matriz africana.

Por isso, não substituir o dendê nas receitas não é só uma questão de sabor: é também tradição e respeito.

dendê/cybercook

A escassez do dendê

A queda nos números deste ano se deve à produção regional, muito abaixo do esperado. A crise é agravada pelo fato de estarmos na entressafra, ou seja, um período em que não há o cultivo do óleo. Este índice só começa a normalizar entre dezembro e janeiro do ano que vem.

Uma das causas para a queda na produção é a dificuldade na hora da colheita. O profissional cortador de dendê precisa subir até 25 metros de altura no dendezeiro, usando equipamentos rústicos e ultrapassados que dificultam a colheita em grandes quantidades.

Os números já demonstravam queda nos últimos anos, mas a crise do Coronavírus, com menos trabalhadores na ativa, agravou o processo.

dendê/cybercook

O dendê do Pará

Uma solução que costuma ser usada para suprir a falta do dendê na Bahia é importar de outro grande fornecedor: o Pará. Neste ano, especialmente, ele está sendo muito bem-vindo.

Mas a solução também apresenta um conflito. Além dos números de produção não serem os ideais para o abastecimento, o dendê do Pará é destinado à exportação internacional, impulsionado pela alta do Dólar e o fato de que o dendê é um componente usado na produção do Biodiesel. Sendo assim, o dendê produzido no Brasil não é inteiramente usado para fins culinários.

O dendê vai acabar?

Não. Mas a situação não tem previsão de melhora tão cedo. Como estamos no período de entressafra, é de se esperar que o ritmo da colheita só comece a se normalizar em 2021.

Mesmo na próxima safra, o volume de produção continua longe do ideal. A falta de investimentos nesta atividade de trabalho é um empecilho que pode voltar a incomodar nos próximos anos. Profissionais da área pedem mais políticas públicas que ajudem na renovação da mão de obra, substituindo os equipamentos rústicos, e também na renovação dos dendezais, muitos deles já antigos e envelhecidos.

Ainda existe azeite de dendê, em virtude do estoque das próprias baianas que vendem acarajé. Com a pandemia do Coronavírus, o consumo de acarajé diminuiu, mas está voltando devido à reabertura gradual da economia no Brasil. As baianas precisam trabalhar e o acarajé é uma fonte de renda para elas, então se o público deixar de consumir o acarajé - e o dendê - toda uma linha de trabalho está ameaçada.

A ordem, por enquanto, é do consumo consciente. Enquanto os números de produção não voltam a um nível animador, o preço do acarajé deve subir um pouco, mas o prato não vai deixar de existir, assim como as baianas seguem trabalhando. Da próxima vez que você vir um acarajé feito no dendê, valorize o trabalho e a História que ele traz. O "líquido sagrado" da cultura baiana está ainda mais simbólico neste período, resistindo à escassez e sendo um símbolo de tradição, memória e sabor.

dendê/cybercook

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